Estudo do termo "semelhança" em Romanos 8:3

CRANFIELD, C. E. B. Comentário de Romanos: versículo por versículo. São Paulo – SP: Vida Nova, 2009.

“[...] Pois que” inicial indica a conexão entre os versículos 3 ,4 e o versículo 2: a pressuposição e o fundamento da dádiva libertadora do Espírito (e da ausência de condenação para os que estão em Cristo) são a ação decisiva de Deus em Cristo. Deus, tendo enviado o seu próprio Filho na semelhança da carne pecadora e em vista do pecado, condenou o pecado na carne declara, de forma resumida, o que foi a ação divina. No original, “seu próprio” é essencialmente enfático. Por “carne pecadora” Paulo, sem dúvida, quis dizer nossa natureza humana decaída. Mas por que ele disse “na semelhança da carne pecadora” em vez de simplesmente “na carne pecadora”? Quatro suposições devem ser mencionadas:


(1) Que ele introduziu “a semelhança de” a fim de evitar sugerir que o Filho de Deus assumiu a natureza humana decaída, e o sentido intencionado seria: semelhante à nossa carne decaída, porque realmente carne, mas só semelhante, e não idêntica a ela, porque não decaída. Conquanto seja essa a solução tradicional, está exposta à objeção teológica geral no sentido de que não foi a natureza humana não-decaída, mas decaída, que necessitava de redenção. [negrito acrescentado]

(2) Que ele inseriu “a semelhança de” com vistas a evitar a possibilidade de dar a impressão de que Cristo realmente pecou: e o sentido intencionado seria: semelhante à nossa natureza humana decaída, porque realmente nossa natureza humana decaída, e no entanto somente semelhante à nossa, porque não culpada de pecado real, pelo qual em tudo o mais nossa natureza humana decaída se caracteriza.

(3) Que a palavra representada por “semelhança” deve ser entendida aqui como significando “forma” em vez de “semelhança”, ou seja, sem qualquer suposição de mera semelhança.

(4) Que o propósito por trás do emprego de “semelhança” aqui (veja o seu emprego em Filipenses 2.7, onde não há nenhuma menção específica de pecado) foi levar em consideração o fato de que o Filho de Deus não foi transformado em homem, mas antes assumiu a natureza humana enquanto permanecendo ainda ele mesmo. Nesta opinião, a palavra grega empregada possui o seu sentido de “semelhança”; o propósito, no entanto, não é de forma alguma enfraquecer a realidade da natureza humana decaída de Cristo, mas atrair a atenção para o fato de que, enquanto o Filho de Deus assumiu verdadeiramente a natureza humana decaída, ele nunca se tornou natureza humana decaída e mais nada (não natureza humana decaída habitada pelo Espírito Santo e mais nada como o cristão poderia ser descrito assim sendo), mas sempre permaneceu ele mesmo. [negrito acrescentado]

Já assinalamos a objeção teológica séria a (1). Contra (2) é preciso dizer que, nesta opinião, torna-se difícil perceber por que Paulo não se contentou apenas com dizer “na carne pecadora”. Relativamente a (2), o emprego da expressão “na semelhança da carne pecadora” dificilmente parece modo satisfatório de indicar que, embora compartilhando nossa natureza humana decaída, Cristo nunca pecou realmente; pois o efeito do emprego de “a semelhança de” é assinalar a diferença entre a natureza humana de Cristo e a nossa (que a sua natureza humana era semelhante, mas apenas semelhante à nossa), entretanto a diferença entre a liberdade de Cristo d[i]o pecado atual e nossa pecaminosidade não é questão do caráter de sua natureza humana (de ela não ser totalmente a mesma que a nossa), mas é questão de o que ele fez com sua natureza humana. E, caso esta sugestão estiver certa, pode-se ainda dizer que o lugar natural para Paulo referir-se à pecaminosidade de Cristo não estava na oração participial que se preocupa com o fato de Deus enviar o seu Filho, e sim na oração principal “Deus [...] condenou o pecado na carne”, e que, corretamente interpretado, o “condenou” inclui de fato a afirmação da condição de isenção de pecado em Cristo.

Concluímos que (4) deve ser aceita como a explanação mais provável do emprego, por Paulo, de “a semelhança de” aqui, e entender o pensamento de Paulo no sentido de que o Filho de Deus assumiu a mesmíssima natureza humana decaída que é a nossa, porém no seu caso essa natureza humana decaída nunca foi a totalidade deleele nunca deixou de ser o Filho eterno de Deus.”
[negrito e itálico acrescentados]

(páginas. 169-170)



[i] CHARLES E. B. CRANFIELD É especialista em Novo Testamento e professor emérito de teologia na Universidade de Durham, no Reino Unido. É Autor do famoso Comentário de Romanos cujos dois volumes integram a impressionante série mundialmente conhecida como International Critical Commentary (ICC, com 52 volumes), da qual é um dos editores.

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