CRANFIELD, C. E. B. Comentário de Romanos: versículo por versículo. São Paulo – SP: Vida Nova, 2009.
Concluímos que (4) deve ser aceita como a explanação mais provável do emprego, por Paulo, de “a semelhança de” aqui, e entender o pensamento de Paulo no sentido de que o Filho de Deus assumiu a mesmíssima natureza humana decaída que é a nossa, porém no seu caso essa natureza humana decaída nunca foi a totalidade dele — ele nunca deixou de ser o Filho eterno de Deus.” [negrito e itálico acrescentados]
(páginas. 169-170)
“[...] Pois que” inicial indica a
conexão entre os versículos 3 ,4 e o versículo 2: a pressuposição e o
fundamento da dádiva libertadora do Espírito (e da ausência de condenação para
os que estão em Cristo) são a ação decisiva de Deus em Cristo. Deus, tendo enviado o seu próprio Filho na
semelhança da carne pecadora e em vista do pecado, condenou o pecado na carne declara,
de forma resumida, o que foi a ação divina. No original, “seu próprio” é
essencialmente enfático. Por “carne pecadora” Paulo, sem dúvida, quis dizer
nossa natureza humana decaída. Mas por que ele disse “na semelhança da carne
pecadora” em vez de simplesmente “na carne pecadora”? Quatro suposições devem
ser mencionadas:
(1) Que ele introduziu “a
semelhança de” a fim de evitar sugerir que o Filho de Deus assumiu a natureza
humana decaída, e o sentido intencionado seria: semelhante à nossa carne
decaída, porque realmente carne, mas só semelhante, e não idêntica a ela,
porque não decaída. Conquanto seja essa a solução tradicional, está exposta à
objeção teológica geral no sentido de que não
foi a natureza humana não-decaída, mas decaída, que necessitava de redenção.
[negrito acrescentado]
(2) Que ele inseriu “a semelhança
de” com vistas a evitar a possibilidade de dar a impressão de que Cristo
realmente pecou: e o sentido intencionado seria: semelhante à nossa natureza
humana decaída, porque realmente nossa natureza humana decaída, e no entanto
somente semelhante à nossa, porque não culpada de pecado real, pelo qual em
tudo o mais nossa natureza humana decaída se caracteriza.
(3) Que a palavra representada
por “semelhança” deve ser entendida aqui como significando “forma” em vez de
“semelhança”, ou seja, sem qualquer suposição de mera semelhança.
(4) Que o propósito por trás do emprego de “semelhança” aqui (veja o
seu emprego em Filipenses 2.7, onde não há nenhuma menção específica de pecado)
foi levar em consideração o fato de que o Filho de Deus não foi transformado em
homem, mas antes assumiu a natureza humana enquanto permanecendo ainda ele
mesmo. Nesta opinião, a palavra grega empregada possui o seu sentido de
“semelhança”; o propósito, no entanto, não é de forma alguma enfraquecer a
realidade da natureza humana decaída de Cristo, mas atrair a atenção para o
fato de que, enquanto o Filho de Deus assumiu verdadeiramente a natureza humana
decaída, ele nunca se tornou natureza humana decaída e mais nada (não natureza
humana decaída habitada pelo Espírito Santo e mais nada como o cristão poderia
ser descrito assim sendo), mas sempre permaneceu ele mesmo. [negrito
acrescentado]
Já assinalamos a objeção
teológica séria a (1). Contra (2) é preciso dizer que, nesta opinião, torna-se
difícil perceber por que Paulo não se contentou apenas com dizer “na carne
pecadora”. Relativamente a (2), o emprego da expressão “na semelhança da carne
pecadora” dificilmente parece modo
satisfatório de indicar que, embora compartilhando nossa natureza humana
decaída, Cristo nunca pecou realmente;
pois o efeito do emprego de “a
semelhança de” é assinalar a diferença entre a natureza humana de Cristo e a
nossa (que a sua natureza humana era semelhante, mas apenas semelhante à
nossa), entretanto a diferença entre
a liberdade de Cristo d[i]o
pecado atual e nossa pecaminosidade não é questão do caráter de sua natureza humana
(de ela não ser totalmente a mesma que a nossa), mas é questão de o que ele fez com sua natureza humana. E, caso
esta sugestão estiver certa, pode-se ainda dizer que o lugar natural para Paulo
referir-se à pecaminosidade de Cristo não
estava na oração participial que se preocupa com o fato de Deus
enviar o seu Filho, e sim na oração principal “Deus [...] condenou o pecado na carne”, e que, corretamente
interpretado, o “condenou” inclui de
fato a afirmação da condição de isenção de pecado em Cristo.
Concluímos que (4) deve ser aceita como a explanação mais provável do emprego, por Paulo, de “a semelhança de” aqui, e entender o pensamento de Paulo no sentido de que o Filho de Deus assumiu a mesmíssima natureza humana decaída que é a nossa, porém no seu caso essa natureza humana decaída nunca foi a totalidade dele — ele nunca deixou de ser o Filho eterno de Deus.” [negrito e itálico acrescentados]
(páginas. 169-170)
[i]
CHARLES E. B. CRANFIELD É especialista em Novo Testamento e professor emérito
de teologia na Universidade de Durham, no Reino Unido. É Autor do famoso
Comentário de Romanos cujos dois volumes integram a impressionante série
mundialmente conhecida como International Critical Commentary (ICC, com 52
volumes), da qual é um dos editores.
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